O Coiso


E pronto... Foi esperar mais uns dias para que o bebé chegasse e fosse aprontado e lá fui buscar a Spyder.

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primeira volta, primeira foto

Tratamento cinco estrelas na Benimoto, o concessionário Can Am. Tudo perfeito quer nos prazos como no tratamento.
Convém referir que não tenho qualquer patrocínio ou benefício, a escrita é feita de forma livre e sem compromissos com ninguém.

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Ora então aí vim com ela por aí abaixo devagarinho. Logo na primeira rotunda ia borrando a cueca.
Relembro que estava a levar Spyder para casa e ao mesmo tempo fazer o test-drive, já que ainda não tinha tido a oportunidade de andar em tal coisa.

Já tinha lido sobre o safanão que se leva na curva, mas ainda não tinha sentido a intensidade...
Mais ao facto de não se inclinar o guiador mas sim ter de se virá-lo... E ainda saindo rotunda fora.
Depois apanhei mais umas curvas e rapidamente me recordei do que tinha lido este tempo todo sobre a condução da Spyder e puz a teoria à prática.

O facto de ter a direcção na dianteira sobre duas rodas faz com que o guiador seja muito dinâmico. Todo o feedback da estrada é transmitido ao guiador e este segue paralelo à estrada.
O que quer dizer que quando a estrada faz um ângulo esquisito (por exemplo com uma depressão) todo o conjunto dianteiro se alinha à estrada, coisa que normalmente não sucede em duas rodas.
Por causa disso deve-se evitar uma pega firme do guiador, deixando-o flutuar.

A maneira como curva é um misto de moto-quatro e kart. Vira com a "violência" de um kart mas à altura de um moto-quatro.
Nas curvas mais apertadas e mais velozes é preciso mesmo adoptar uma postura. Caso contrário existe uma boa probabilidade de ser projectado fora.
Nesse caso e para que a coisa corra bem é necessário fazer a curva à "sidecar". Meter o corpo dentro da curva, encostar o joelho de dentro ao depósito e fazer força na peseira com o pé de fora.
No guiador o braço de fora empura e é o que manda, já que o de dentro vai fletido. O acerto da trajectória pode ser feito a qualquer momento, puxando ou empurando o braço de comando.
Pode parecer complicado, mas não é de todo, na verdade até é muito natural... E o divertido que isto é?... Nossa Senhora...
Curvar de mota é fantástico, mas a maioria das curvas é feita de forma banal (a não ser que se entre à Valentino Rossi em todas). Com a Spyder diria que mais de metade são uma loucura!
Qualquer rotunda faz-se com um soriso na cara e as curvas em cotovelo são um gosto (normalmente muito chatos de fazer em duas rodas).

Ainda assim são coisas diferentes e incomparáveis. A Spyder não é uma mota e a sua maior diferença é precisamente na forma como curva.
Não é igual ou sequer parecida, é totalmente diferente, mas nem um bocado menos divertido. A ausência de inclinação faz com que a distribuição de forças proporcione uma experiência intensa em cada curva.

Há quem diga que a transição é mais difícil para quem vem das duas rodas, pois no meu caso devo dizer que tirando a dinâmica das curvas e ter ido à procura da manete de travão inexistente algumas vezes a adaptação foi muito natural.

E falemos de travão. Na Spyder é todo feito com um só pedal debaixo do pé direito. A imobilização do conjunto é assegurada por três pinças brembo sobre as três rodas.
Era esperado que a travagem fosse melhor que em duas rodas... E é mesmo! Os 400 e picos quilos ficam leves quando se aplica força no pedal.
A travagem é muito bem doseada, servindo a primeira metade do pedal apenas para assistência e a restante para parar o veículo de imediato.
O accionamento debaixo de um só comando permite facilmente combinar e distribuir a travagem.
O facto de estar debaixo do pé é também o que mais faz sentido quanto a mim, conseguimos aplicar muito mais força com a perna do que com a mão.

Apesar de ser pesada (cerca de 400kg) existe muito movimento lateral na Spyder, muito mais que de mota. E isso deve-se seguramente à direcção de duas rodas e ao facto de ser bem baixinha (suspensão firme).

Outro aspecto é o de se sentir muito a estrada. Numa mota existe uma fileira de rodas, num carro duas, e num triciclo três...
Por isso se houver um buraco na estrada, é quase certo que a Spyder vai encontrá-lo...
E mais, podendo escolher é de evitar acertar com a roda de trás pois é aquela que vai debaixo do rabo.

Falta dizer qualquer coisa sobre uma das razões que me levou à mudança - condução com pendura.
Pois bem era mesmo o que esperava. Ir com pendura tem zero influência no conjunto... Não se sente nada. Nem a direito, nem em curva... A dinâmica não muda.
Bem, para ser rigoroso, há algo que muda. Logo debaixo do banco do passageiro existe um botão que é accionado com o peso do pendura.
Este informa a Spyder da existência do passageiro, o que faz com que o sistema de controlo de estabilidade actue mais cedo. Isto nota-se bem em curvas apertadas feitas com vigor onde a Spyder se segura aplicando travão na roda interior (para evitar que a exterior levite).
Supostamente (segundo o mecânico da Benimoto) o motor fica também mais disponível nesta situação (provavelmente para compensar o peso extra), mas tal não consigo comprovar, pois o motor é sempre generoso desde que se abre o accelerador.

E claro como qualquer triciclo de jeito está equipada com marcha-atrás o que torna qualquer manobra segura e simples. De notar que a marcha-atrás na Spyder é verdadeira e mecânica ao contrário das soluções normais adoptadas nas motas de grande turismo (motor eléctrico/arranque).

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E claro, marcha-atrás

Ainda sobre condução a dois cabe dizer que se a suspensão desportiva FOX na dianteira porta-se à altura, já a de trás é uma desgraceira.
Não é sequer regulável e embora seja satisfatória em condução a solo, é manifestamente fraca com passageiro, levando a encostos frequentes da roda na cava.
É verdade que são oferecidos vários upgrades de suspensão. No entanto estando anunciado no manual uma carga máxima declarada de 199kg que cobre com folga o peso de duas pessoas não se percebe que num veículo tão exclusivo e bem apetrechado montem este tipo de suspensão fraquinha de origem.
Fiz muitos poucos quilómetros com o amortecedor de origem. Montei um Shock Factory de construção franco-inglesa. A mola é calibrada à saída da fábrica à carga que se pretenda. Depois o amortecedor pode ser regulado atravês de uma mola única num total de 48 cliques.
De maneira que ficou o problema resolvido. 6 cliques para condução a solo, 16 para condução a dois e mais alguns consoante o peso que leve nas malas. E assim está perfeito.

Finalmente e porque nem tudo são rosas, aquele vidro montado como acessório não cumpre perfeitamente. Recorde-se que a F3-S é entrege sem vidro, sendo oferecidos dois em opção. Um mais curto (39cm) e outro mais alto (54cm).
Pois bem, o mais alto (o que mandei instalar) desvia bem o vento à execepção da careca do capacete. Aquela pontinha de cima fica ali sujeita a umas correntes danadas. A velocidades mais elevadas leva-se uma valentes lambadas no capacete.
Apenas fulanos de baixa estatura se sentirão confortáveis, eu tive de resolver este problema instalando um deflector de 10cm no topo...