As almôndegas do Aziz


Dia 3, Moulay Idriss.

Mais uma manhã soalheira no Caiat. Levantámo-nos, higiene habitual e seguimos para o delicioso pequeno-almoço. Mesmo local, na esplanada virados para o vale.

Depois do estômago aconchegado, altura de pagar a conta, despedidas e seguir estrada fora em direcção a Fés. Agradecemos a recepção simpática ao Daniel, que foi maravilhosa, soube bem este toque lusitano logo depois de desembarcar em África. Ficou a vontade de passar por aqui alguns dias de descanso. Motas carregadas e ala que se faz tarde.

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nós e o Daniel Pinto, que bem se este no Caiat

Passámos ao largo de Chaouen progredindo para Sul em direcção à vila de Moulay Idriss. A estrada, mais ou menos a direito, era agradável e a paisagem continuava verdejante e interessante. Algures a meio do caminho fizemos uma paragem junto a um Oued, ou rio. Ajustámos o equipamento e seguimos viagem.

Por volta da hora de almoço estávamos a chegar aos arredores de Moulay Idriss. O objectivo era visitar as ruínas de Volubilis, um local arqueológico que há por ali de uma cidade romana. Estávamos todos com fome, pelo que ainda fui espreitar se havia onde comer à entrada das ruínas. Não havia, de modo que seguimos até Moulay Idriss logo ali ao lado, à procura de almoço, deixando a Volubilis para a parte de tarde. Entrámos poucos metros em Moulay quando demos com a praça principal. Havia logo ali alguns botecos marroquinos, e quis o azar (ou a nossa sorte) que a frente de um deles estivesse desimpedida para estacionarmos as motos. Perguntei a um polícia onde poderíamos deixar as máquinas, e este confirmou que ali estariam bem.

O dono do boteco chegou-se logo à frente ajudando-nos a deixar as motos ali arrumadas. Claro está, sentimo-nos na obrigação de fazer ali a despesa. O local era pouco maior que uma cozinha, e resumia-se a uma bancada na esplanada com duas ou três mesas. O homem era uma simpatia e aceitámos que nos tratasse da refeição.

O prato seria uma tagine kefta, que é essencialmente uma espécie de almôndegas na chapa com molho de tomate fresco, cebola e aquelas especiarias que eles tão bem sabem usar. Tivemos o privilégio de ver o fulano tratar do almoço à nossa frente. O marroquino de nome Aziz, nos seus cinquenta e muitos anos, fazia questão de nos descrever a confecção do prato. Enquanto a coisa apurava, ia-nos servindo um delicioso chá berber, ou “whisky berber” como é conhecido. Foi aqui que percebemos as diversas nuances do chá marroquino. Pois bem, há essencialmente três formas de preparar o chá. 100% menta, meio/meio ou 100% da planta de chá. A versão berber é a última, puro chá, sempre açucarado.

mestres da culinária

Este senhor era de uma simpatia extrema: esforçou-se por nos agradar, esforçou-se por fazer a melhor refeição, esforçou-se por nos deixar confortáveis. Bem, a verdade é que provavelmente nosso amigo Aziz não se esforçou em nada, e tudo aquilo era apenas bondade autêntica e natural, como já não estamos habituados a ver.

o ar de satisfação

Comemos que nem uns reis, lambuzámos as nossas beiçolas naquela tagine maravilhosa, sempre acompanhada daquele pão fabuloso. Tirámos uma boa colecção de fotos e no final o Aziz pediu-nos que lhe enviássemos as fotos para um mail que me trouxe rabiscado nas costas de um bocado de uma embalagem de chá. Não sei se lá chegará, mas irei com certeza tentar enviar-lhe uma foto, o tratamento que tivemos merece sem dúvida o gesto. No final apertou-nos a mão e deu-nos quatro valentes beijocas a cada um, à marroquino… Sim, aqui os homens beijam-se. Este almoço foi sem dúvida uma boa memória que ficou para todos, até pelo preço que pagamos, cerca de 4€ cada um.

Estômagos bem aconchegados seguimos para a visita de Volubilis, sem antes fazer o percurso panorâmico de Moulay Idriss como aconselhado pelo nosso amigo.

Chegámos ao parque de Volubilis e dirigimo-nos à entrada mais abaixo. O Aziz tinha-nos também dito para entrar pela porta de baixo e sair pela de cima, e só percebi o porquê mais tarde.

Deixámos então as motas junto à porta de baixo e fomos logo abordados pelo guarda “oficial” do parque. 10 dirhans cada um, pagos adiantados. Depois o guarda fez-nos sinal para entrar por cima, e assim fizemos. Ao chegar à porta de cima, havia um guiché que aparentava ser a bilheteira… Cometemos o erro de olhar para lá, e logo nos foi cobrado mais 10 dirhans pela entrada, isto enquanto outros passavam sem deixar tusto. Não seria a última do género. Em Marrocos é assim. Há sempre um marroquino a cobrar bilhete, mas ninguém lhe liga muito. E ele também não se empenha a não ser que se vá ter com ele, ou se tenha pinta de turista. Os bilhetes são genéricos (apenas fazem referência a uma direcção qualquer de monumentos) e felizmente baratinhos, menos de 1€ cada. Entrámos no sítio arqueológico e apontámos para as ruínas do templo. O local em si é grandioso e enorme.

Pelas ruínas ainda se conseguem perceber as avenidas e a dimensão fabulosa do local. No entanto todo o espaço em si parece se encontrar ao desmazelo. Mato alto, tudo espalhado, nada identificado ou catalogado. Só mesmo o marroquino com apito que por lá circula a proibir os turistas de subirem para os blocos de pedra para dar algum ar organizado à coisa.

Andámos por ali um bocado à volta do templo que será talvez o maior núcleo de vestígios, e nem tivemos mais curiosidade em ver o resto. Não é que por cá se faça melhor, também somos especialistas em não cuidar do nosso património histórico (veja-se Miróbriga em Santiago do Cacém), mas realmente Moulay Idriss até me pareceu mais interessante que Volubilis.