Os estupores dos guias...


Dia 03, Fés.

Voltámos à estrada. A saída de Volubilis foi curiosa, pois o GPS fez-nos repassar pela estrada panorâmica de Moulay Idriss, mas em sentido contrário. A vista era boa, mas o troço não era particularmente simpático de fazer (piso estourado e cheio de lixo). Afastámo-nos da vila e seguimos montes afora. Lembro-me de passarmos por um rebanho na estrada e de um troço de curvas manhosas, género cotovelos, com meia faixa de alcatrão cheia de gravilha. Finalmente aproximávamo-nos de Fés. Uma paragem ainda no exterior da cidade para “mudar as águas”, duas ou três fotos e siga para o meio da confusão.

Esta seria a primeira entrada numa grande urbe africana. Para que fique a ideia, trata-se da segunda maior cidade do reino de Marrocos, com cerca de 1 milhão de habitantes. Foi capital e pertence ao conjunto das quatro cidades imperiais com Rabat, Marraquexe e Meknés. Encerra a mais antiga Medina do mundo, que com as suas cerca de 9000 ruas e becos assume a o título de maior área urbana sem carros do planeta. O termo Medina designa a zona antiga e original da cidade. É aí que se concentra o comércio, madraças (escolas corânicas) e mesquitas. É o coração da cidade que está geralmente vedado ao trânsito automóvel.

Já tínhamos tido um cheirinho em Tanger de como se regrava o trânsito, e Fés não destoou. Assim que começámos a aproximação à cidade fomos logo assolados por pseudo-guias de "mobylette"(aquelas scooters a pedais) que nos acompanhavam em andamento, fazendo perguntas e oferecendo serviços - onde ficar, onde ir, onde comer - à vontade do freguez, mas claro a troco de uma boa “propina”. Fomos despachando os gajos, mas eram mais chatos que varejeiras! Apareciam de todos os lados, até fora de mão. Eu seguia à frente e tinha o ponto de GPS que tinha retirado do booking. Para nosso azar, quando chegámos ao destino, nada havia. Tivemos então de recorrer a um destes espertalhões de motoreta para nos levar ao Riad que tínhamos reservado. O tipo queria-me levar a outro que conhecia, dei-lhe bem a entender que não nos interessava e que queríamos ir ao nosso. Ainda antes e para não haver confusões, perguntei-lhe o preço do “serviço”, ao que o gajo me responde “é o que tu quiseres”. Seguimos o tipo que nos enfiou Medina dentro pelo Souk (mercado). Grande maluqueira. Um mar de gente e nós pelo meio com as nossas “pequeninas” motas armadas com bagagem. O tipo na sua mobylette seguia à minha frente, eu fazia o melhor para o seguir e não perder o Benedito atrás de mim. Pelo intercom ouvia o Barradas a stressar: “eu vou mandar um abaixo, não tarda!”… Filmei toda a cena, para mais tarde recordar. Finalmente chegámos a uma espécie de parque de estacionamento manhoso. O tipo diz-me que teríamos de deixar as motos ali e seguir a pé alguns metros. Achei estranho. Deixei os Ruis no parque e fui com o guia até ao Riad. Não andámos muito até chegar à porta da casa, mas aquilo não era o que queríamos. Disse-lhe que não e virei costas. Este “Mustafá” ou percebeu mal, ou está a armar-se em esperto. O tipo veio atrás de mim, sacou de um cartão e perguntou-me se era aquele o Riad. “É mesmo esse”, disse-lhe eu. Veio-me com uma conversa que me tinha perguntado se era ali, e que tinha dito que não. Para ser sincero, já não me lembro. Perguntei se nos levava lá. O tipo não devia saber onde era pois chateou outro que por ali passava. Lá se entenderam e voltámos às motas... e adivinhe-se?... Tivemos de fazer o caminho de volta pelo Souk… Ai, ui, ui, ai… e um pouco depois estávamos noutro ponto da Medina que parecia mais sossegado. Este sim era o lugar que tínhamos reservado. Descarregámos as malas e perguntámos pelo parque. As motas até não ficariam ali mal na rua, mas por 20 dirhans a noite (cada uma) fechadas em garagem, não arriscámos. Mas antes de levar as motos ao parque fechado (a uns 50 metros dali) tinha de acertar as contas com o “Mustafá” de serviço. Dei-lhe 20 dirhans para a mão. O gajo não gostou e pediu-me 50 dirhans, ao que lhe respondi, “Então mas afinal é o que tu queres, ou o que eu quero?... Quando te perguntei antes, o que disseste?”… O tipo não insistiu e contentou-se. Se o tipo do parque nos leva 20 dirhans para guardar uma moto num parque, não estou a ver porque é que este gajo quer 50 dirhans para nos levar em 500 metros de Medina… A esse preço só ficava satisfeito se me carregasse às costas! O Benedito levou um dos empregados do Riad à boleia até ao parque, para que nos indicasse o caminho. Confirmámos o preço, arrumámos lá as motas e voltámos todos a pé.

O riad era maravilhoso. Uma casa de 300 anos tipicamente decorada e maravilhosamente mantida. Como todos os riads, as habitações aglomeram-se em redor de um magnífico pátio central ornamentado com uma belíssima fonte no meio. Foi aí que nos serviram o chá de boas-vindas e que trocámos umas palavras com o que deveria ser o proprietário. Falou-nos do significado histórico de Fés e da sua afamada Medina. Disse-nos que no mínimo deveríamos despender dois dias para visitá-la condignamente e que hoje, sexta-feira, não seria o melhor dia, dado que pelo Islão é dia de oração e a grande maioria do comércio está encerrado. Com o Médio Atlas para atravessar amanhã, não havia tempo para Medinas. Paciência. Iríamos mesmo assim dar uma voltinha por ali e procurar jantar, o resto terá de ficar para uma próxima oportunidade.

Assim fizemos, saímos à rua a pé e metemo-nos por aqueles becos. É certo que a grande maioria das lojecas estava encerrada, ainda assim muitas estavam abertas, sobretudo numa das duas avenidas principais. Comes e bebes, quinquilharia, roupa, candeeiros e mais não sei o quê, era o que se via por ali à venda. O Benedito queria já começar as compras, mas haveria mais tempo para isso em Marraquexe. Eu sei que já ia desorientado. O Barradas dizia que sabia o caminho, e que podíamos dar a volta por “ali”.

Às tantas demos connosco a uma das portas da Medina. Nisto somos abordados por mais um “espertalhão” que queria nos mostrar não sei o quê. Despachámos o gajo em espanhol, mas não ficou convencido. Virou-se para o Barradas a dizer que ele não o enganava, que era marroquino de Casablanca! Embrulha… Se não estou em erro foi a segunda vez que ouvimos esta conversa. Já o guia do Caiat tinha dito o mesmo. Parece que o Barradas tem ali uma costela de África… Bem, na verdade temos todos, não tivéssemos nós sido ocupados por muçulmanos… Ainda hoje a Sul do Porto se fala nos Mouros… Mas pronto, de todos nós, parece que o Barradas é o mais marroquino!

Não nos afastámos muito da Medina. A rua estava movimentada, nós com fome, e pareceu-nos bem jantar por ali. Espreitámos dois ou três botecos, tudo igual. Optámos por nos aproximar daquele que mais gente tinha. Uma espécie de snack-bar que servia frango num género de kebab enrolado, que é o mesmo que dizer, carne fatiada, arroz, salada e batata frita enfiada num crepe. O lugar tinha umas mesas ao fundo e à entrada a cozinha, numa espécie de avançado onde se processava a comida a grande velocidade. Ao lado da “cozinha” estava um tipo sentado atrás de uma registadora. O fulano apercebeu-se do nosso interesse e pôs-nos logo à vontade descrevendo a ementa disponível. Apesar de não muito bem encarado, foi mesmo simpático e deu indicações para nos arrumarem uma mesa no interior. Em pouco tempo estávamos lá dentro sentados à espera do jantar. Bom, o sítio era impressionante, em especial o chão que dava ideia não ser limpo há pelo menos um mês… Tudo o que ali caía, ali ficava. Mas estávamos ali para fazer como os outros e partilhar do espírito, só assim se pode dizer que se passa pelas coisas. Vieram as “sandes” enroladas em papel manteiga. Achámos melhor pedir bebidas engarrafadas. Existe sempre um mini-jerrycan de água disponível nas mesas, mas a recomendação é sempre optar por algo que venha fechado para a mesa. Comemos o nosso “kebab” enrolado. Não foi bom, nem mau, antes pelo contrário, e saímos dali. Tudo creio que ficou por 7 dirhans. A ver vamos se mais logo não ficamos com uma dor de barriga.

É bom, ou não é bom?...

Regressámos à Medina guiados pelo mestre Barradas, O Marroquino. Tentou-se tirar umas fotos, mas a fraca luz não proporcionou nada de jeito.

Conseguimos regressar ao Riad, sem grandes problemas, mas eu fiquei com a sensação clara que ali nos podemos perder. Quem não for cauteloso e não recorra a bons pontos de referência, com certeza se perderá com todos aqueles becos escuros, túneis e passagens estreitas.

No Riad despachámo-nos a subir ao nosso quarto, uma mezzanine debruçada sobre o pátio, com duas camas em cima e uma em baixo.

Esta era a nossa mini-central eléctrica habitual

Decidimos entre nós que O Marroquino, que não ronca, ficaria em baixo. Aqui havia wifi, mas apenas no pátio, pelo que antes de dormir e à vez, enquanto se tomavam os banhos fomos revezando nos portáteis para falar com a família e carregar umas fotos no facebook.