Um portuense em África


Dia 01, Lisboa.

Perto das 4h00 estava a chegar ao posto de abastecimento do Fogueteiro na A2. A tralha tinha sido arrumada de véspera, mesmo assim demorei a carregar a bagagem na “burra”, pelo que quando cheguei no local já se encontrava a dupla de Ruis (Barradas e Benedito) a postos para arrancar. Cumprimentos habituais e duas ou três fotos para marcar o momento. Não mais que isso, pois logo começámos a ouvir pelos altifalantes que não era permitido captação de imagens no local... Devia estar mal disposto o funcionário.

E lá fomos em redor dos 140km/h para não arriscar a multa logo no inicio da viagem. Auto-estrada até Grândola e dai por nacionais até Rosal de la Frontera. A travessia do Alentejo foi penosa, em especial nos arredores de Serpa onde deveriam estar uns 3 ou 4ºC. Apesar de bem agasalhados e dos punhos aquecidos no máximo batemos bem o dente. Em Rosal, o primeiro abastecimento a preço espanhol e mais em conta.

Mais adiante e depois de Aracena, parámos para o pequeno-almoço. Um café e uma avantajada sandes de presunto. Tudo, cerca de 6€, mas merecidos.

Depois entrámos nas auto-vias, passando Sevilha ao largo. Finalmente avistávamos o mar e Tarifa. Já estava quente. Ainda com algumas horas pela frente até ao embarque, estacionámos as motos numa ruela pequena à sombra e seguimos à procura de almoço.

Encontrámos-lo, logo à entrada do porto, num restaurante que nos pareceu agradável. Na esplanada, pasta para todos: esparguete, canelonis e lasanha para cada um.

16h00, hora de carregar as motas no barco. Entrámos no porto, estacionámos as motas e fomos levantar o bilhete. No regresso passam por nós um grupo grande de motos portuguesas que também seguiam para África. Ficamos a perceber através de um deles (o mais castiço que se fazia transitar em scooter Burgman) que eram de Aveiras e iam passar uns dias ao outro lado.

Mais uns minutos no parque e começámos a avistar a barcóla de boca larga que nos iria levar a África.

Assim que descarregou o que trazia, começou a carregar para a próxima viagem. As motos entram primeiro. O grupo de Aveiras seguiu à nossa frente, e em pouco tempo estavam as motas todas arrumadas no fundo do convés, cintadas e calçadas para a viagem.

Subimos ao porão, e escolhemos umas cadeiras para passar a viagem. Tratamos logo de preencher a folha de registo de entrada e aguardar que a pedissem.

Mesmo ao nosso lado estavam os portugueses. O castiço fez questão de vir ter connosco e nos trazer um belo pão caseiro de cozido… Sim, não estava recheado de chouriço, mas antes de carnes do cozido. Nunca tinha visto tal preparo, e soube bem, apesar do pão estar meio cru.

Comemos uma bela fatia, agradecemos e fomos dar uma volta ao barco. Cá fora já se avistava a costa marroquina e a cidade de Tanger.

O barco sendo bem grande (talvez com uns 3 pisos de convés) ia talvez a meia lotação. A viagem estava a ser calma, mar raso e tempo agradável. Foi feita a chamada, e ainda no barco seguimos com a ficha e passaporte para o guiché para dar entrada no destino. Aí encontrámos outro tuga que se deslocava a trabalho. Um motorista de autocarro a serviço. Contava-nos eles que não gostava de cá vir, a trabalho claro. Falou-nos no problema que é o regresso, com os marroquinos clandestinos a “enfiarem-se” nos buracos do autocarro para fazer a travessia. Carimbámos o passaporte e recebemos pela primeira vez o nosso número de identificação marroquino. Até aqui tudo pacífico.
O barco atraca, e apressámo-nos a ir para o convés aprontar as “meninas”. Algum stress, mas encontrámos-las bem. Solta cinta, sobe para cima da mota e saímos do barco atrás do grupo de Aveiras.

Já estávamos em Marrocos. Mas não andámos muito, parámos logo ali mais adiante na alfândega. Ficámos ali à espera com o grupo que chegasse a nossa vez. No entretanto andava um tipo com uma bandeja a servir uns chás de menta em copo plástico. Aceitámos um, e logo de seguida estava o fulano a estender a mão à espera da “propina”. Acho que lhe dei um ou dois euros que trazia, mas o chá não valia um tostão. Mostrámos a documentação ao oficial da alfândega. O tipo era simpático falava francês e logo nos disse que a papelada ali era gratuita. Nisto, andava por ali um velhote com ar reguila a rondar as motos. O indivíduo estava apenas identificado com um desenho de um distintivo qualquer no boné. O tipo pediu-me os papéis num tom ríspido, e quando percebeu que não pertencíamos ao grande grupo de portugueses largou-me da mão. Logo de seguida houve ali uma situação tensa. Alguém do grupo de Aveiras, não deu cavaco ao fulano e virou-lhe as costas em desagrado. O velho ficou chateado e dado que de todos era eu o que parecia falar melhor francês, veio ter comigo e pediu-me para explicar ao tuga que ali havia duas autoridades, alfândega e polícia, e que ele pertencia à última.

Na verdade o marroquino tinha razão. Mas a entrada ali processa-se descoordenadamente, afinal estamos em África... A alfândega não quer saber da polícia, e a polícia da anterior. No meio disto tudo andam por ali uns malandros a ver se fazem pela vida à custa do turista desorientado. Expliquei ao velho marroquino que tinha razão, para desculpar o companheiro que o tinha confundido com um oportunista. Tudo se passou bem, seguimos ainda ao guiché da polícia para fazer o registo de entrada e finalmente saímos do porto para atravessar Tanger. Perdemos ali mais de uma hora nisto.

Logo à saída do porto começou-se a sentir África. Milhares de pessoas a deambular pela rua e um trânsito caótico. Grande choque. À primeira rotunda, ríamos connosco próprios, de nervosos que estávamos. Eu estava ali há minutos e já estava adorar aquilo. Saímos tão entusiasmados que nos esquecemos de tratar de levantar dinheiro marroquino. Consultámos o GPS e parámos à beira de uma avenida para atravessá-la a pé até ao ATM mais próximo.

Um bairro da lata repleto de assaltantes... Essa é a primeira impressão com que se fica... E não pode ser mais falsa e enganadora. Felizmente não demorámos muito tempo a perceber isso. Uns em cima dos outros levantámos dinheiro, cerca de 3000 Dirhams cada (11 Dirham = 1 Euro) e regressámos às motos. Prosseguimos até à saída de Tanger percorrendo o trânsito e rotundas que nos conduzem para fora da cidade. Cada rotunda que fazíamos, era uma emoção. Ali não há regras, não há traços, não há sinais, todos circulam como lhes apetece e por onde lhes apetece. Máxima atenção aos espelhos e ao que se atravessa à nossa frente, e vamos bem. Ainda parei numa ou duas passadeiras, mas depois de ver o estado espantado em que os peões ficavam, deixei-me disso. Rapidamente se percebe que a preocupação é de quem atravessa e não de quem circula.
Finalmente chegávamos à nacional que nos iria levar até Tetouane, e de caminho parámos para abastecer numa estação de serviço. Começava a escurecer. Atrás de nós chegou um polícia motard marroquino. Os tipos aqui circulam de BMW RT novinhas. O Benedito quis lhe tirar um retrato, mas o fulano não deixou. Continuámos pela nacional mais uma boa hora. No inicio íamos contidos a respeitar o traço, mas com o adiantar da hora e escurecer repentino, começámos a pisar o risco, como eles fazem. Lembro-me que seguia à frente de pupilas bem dilatadas. Noite completamente escura sem uma luz, e uma estrada sinuosa, cheia de deformações e lixo na berma. Liguei os duzentos e vintes watts de faróis da Tiger e fiz-me ao caminho. Com um clarão destes, nada escapa.

Por fim, após mais uma curva larga chegávamos ao Refuge Caiat. Lá do cimo ouvi as indicações para subirmos a rampa até ao parque. Rampa não asfaltada, algo íngreme e um pouco estragada. Subimos aquilo sem dificuldades mas com cautela. Depois de 700 e poucos quilómetros, finalmente cortávamos a ignição às motas.

Para nos receber estava o Ahmed que logo nos mostrou o caminho do nosso quarto pelo jardim do Caiat. Grande pinta! Um quarto à marroquino com quatro camas (uma delas beliche) dispostas à volta. Só iríamos usar três, mas as outras dariam jeito para distribuir a tralha. Já não era cedo, pelo que fomos à casa principal à procura de jantar. Lá encontrámos o Daniel, proprietário do Caiat e portuense de gema... Sabe bem chegar a África e continuar a falar português. Logo nos pôs à vontade e passou-nos a ementa. Sopa para começar e tajines para continuar. Tudo muito típico claro.

A tajine é um prato típico marroquino que herda o seu nome do tacho de barro afunilado onde é cozinhado. É composta geralmente por legumes, especiarias e carne (borrego, vaca ou frango) sendo o processo de cozedura feito de forma muito lenta o que permite obter uma carne extremamente macia e solta.

As escolhas dividiram-se entre a sopa de harira (uma sopa berber consistente com base de tomate), creme de legumes e tajines de carne com legumes ou ameixas e amêndoas. Acompanhamento com o pão marroquino, que é delicioso e do qual ficámos fã... Geralmente redondo, é feito de uma massa leve pouco fermentada e de uma côdea salpicada de sementes.

A refeição foi feita na companhia do Daniel, sempre em amena cavaqueira. Mandámos vir a sobremesa e ainda continuámos ali algum tempo na conversa antes de recolher aos nossos aposentos. Estávamos cansados e não demorámos muito a adormecer.